Um documentário bastante realista sobre o aborto

Lenise Garcia

Há algumas semanas fui procurada pela produção do programa Conexão Repórter, da SBT, que desejava uma entrevista sobre aborto, para uma reportagem sobre clínicas clandestinas, principalmente. Confesso que tive certo receio de aceitar, pois prefiro falar ao vivo, sem o risco de ter a minha fala editada, e muitíssimo reduzida, talvez não reproduzindo os aspectos mais relevantes. Mas concordei, e fizemos uma longa gravação na UnB, que efetivamente aparece brevemente no programa (comentarei sobre isso depois). Se eu tinha receio do modo como seria tratada a minha fala, e principalmente do conjunto da reportagem, devo dizer que ela me surpreendeu positivamente, e realmente merece ser assistida. Está disponível aqui.

O próprio título, “proibidos de viver”, mostra que não se esqueceu um importantíssimo protagonista, a criança abortada. Também o dilema das grávidas que não desejam o filho é mostrado com realismo, e o impacto psicológico do aborto sobre a mulher brota de suas próprias falas. Destaco 3 depoimentos que me impressionaram especialmente:

1. O da primeira mulher a ser entrevistada, que muito sofreu na mão de uma aborteira, teve o seu útero prejudicado, que diz que “precisava” fazer o aborto naquela altura – e como isso retrata como muitas se sentem! – e termina resumindo tudo em duas palavras: culpa e arrependimento.

2. O da mulher que fez 10 abortos, um deles aos 6 meses (e que conhece quem fez aos 8), pela sua aparente frieza, por ser uma evidência claríssima de um dos pontos que mais me preocupa em relação à legalização, ou seja, o fato de que o aborto termina banalizado quando é amplamente aceito.

3. O da jovem que faz o aborto “legal” (já expliquei aqui que isso não existe no Brasil) e evidencia o quanto foi pouco esclarecida, pois ficou traumatizada ao ver o feto abortado: “achava que era só uma bolinha de sangue”.

Quanto à minha própria fala, compreendo que o estilo do programa é esse mesmo, de uma gravação de quase duas horas (entre as imagens no laboratório e a entrevista) ficam alguns segundos. O mesmo deve ter ocorrido em relação a muitas cenas. Mas sempre é um pouco frustrante que muitos argumentos, relevantes para os pontos em debate, não tenham ido ao ar. Apesar disso, fica o meu agradecimento à produção por ter sido lembrada, e os meus parabéns pela abordagem que trouxe à luz vários aspectos da crua realidade do aborto, e da beleza da vida.

Também chamou-me muito a atenção a fala final do Cabrini. Mas não vou estragar revelando aqui. Assista e veja.

 

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2 Comentários

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2 Respostas para “Um documentário bastante realista sobre o aborto

  1. Assisti a reportagem. É forte e realista e mostra os dois lados da mesma moeda. Emociona o nascimento do bebê. Discordo do repórter; não acredito que haverá um consenso pois o tema não é questão de consenso.

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