Demasiados abortos

Lenise Garcia

Logo que saiu a pesquisa de um grupo da UnB, coordenado pela Dra. Débora Diniz, sobre números do aborto no Brasil, foi-me solicitado pelo Jornal da Tarde um artigo de opinião. Apesar de estar em viagem, fiz o esforço de produzir, no mesmo dia, o texto que segue abaixo. Não tive oportunidade de vê-lo publicado, e posteriores tentativas de contato com a jornalista que o solicitou não surtiram efeito.

Ontem o programa Fantástico repercutiu essa pesquisa, e por isso penso que é oportuno trazer aqui o breve artigo.

Demasiados abortos

Este foi o título de um Editorial do jornal espanhol El Pais, em 10 de dezembro de 2008, em que comentava que o aborto é “percebido por muitos jovens como um método anticoncepcional de emergência, quando é uma intervenção agressiva que pode deixar sequelas físicas e psicológicas.” O jornal mostrava a preocupação com o grande aumento do número de abortos, depois de uma lei mais permissiva, na Espanha.

A pesquisa recentemente publicada no Brasil sobre números do aborto merece também sérias reflexões. Foi dirigida e interpretada por pessoas que defendem a descriminalização do aborto, mas dados são dados, e certamente é possível analisá-los por outros ângulos, como faço aqui.

O âmago do problema consiste no aborto em si, sendo falsa a dicotomia entre aborto clandestino “arriscado” e aborto legal “sadio”, pois nenhum aborto é saudável, nem ética, nem social, nem psicologicamente. Se o aborto é o problema, o aborto não pode ser a solução.

O enorme número detectado mostra uma chaga social, e traz muitos questionamentos. Fica evidente, pelas estatísticas e pelos depoimentos, a futilidade, até frivolidade, que envolve muitos casos. Vê-se o aborto sendo usado como método de controle de natalidade, por pessoas que poderiam perfeitamente arcar com a manutenção e educação de mais um filho. Isso indica que, se legalizado no Brasil, o aborto seguiria uma escalada similar à que aconteceu em outros países, como a Espanha, ou como a Rússia, na qual há mais crianças mortas no ventre das mães do que nascidas vivas.

Vê-se também a facilidade de acesso a medicamentos abortivos proibidos, e a clínicas clandestinas, sem que as autoridades tomem nenhuma providência. A conivência governamental, e fortes indícios do envolvimento de entidades estrangeiras que promovem o aborto no Brasil, fornecendo aparelhagem e treinamento a profissionais de saúde, foram as justificativas apresentadas por vários deputados que solicitaram a criação de uma CPI para investigar o aborto clandestino no Brasil. Criada ao final de 2008, a CPI até agora não foi instalada, pela resistência das lideranças dos partidos da base governista, que se recusam a indicar membros. O financiamento público da pesquisa agora publicada mostra que o governo deseja mostrar apenas parte dos fatos, e não o seu conjunto.

Os números refletem também o baixo investimento no aspecto mais importante: a prevenção da gravidez indesejada, que só se pode conseguir com educação e o favorecimento de uma vivência da sexualidade consciente e responsável.

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17 Comentários

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17 Respostas para “Demasiados abortos

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  3. Sem dúvida, se o aborto é o problema, o aborto não pode ser a solução.
    Entretanto, ainda assim, resta esclarecer melhor a metodologia empregada na referida pesquisa que, ao que parece, trata da mesma forma diferentes tipos de aborto (provocado, espontâneo, decorrente de complicações médicas e/ou doenças, etc.).
    Caso realmente seja constatada esta falha metodológica, os números apresentados não são confiáveis.

  4. André

    Excelente artigo. Parabéns!

  5. Humberto

    Denise sua matéria está excelente!
    Gostaria de acrescentar alguns comentários sobre a CPI do aborto. Se instalada essa CPI iria desmascarar parlamentares e altas autoridades do Executivo envolvidas com organizações e fundações internacionais que financiam as atividades para que o aborto seja legalizado no Brasil.
    Ora em ano eleitoral não haveria conveniência em funcionar essa CPI

  6. Eu fiquei estarrecida com o número de mulheres que fazem aborto e o risco a que estão sujeitas, mesmo em hospitais qualificados: A curetagem é muito perigosa.
    Retirar um feto que tem vida, é o mesmo que retirar a vida de um idoso com vida vegetativa . Enquanto existe vida deve haver respeito ao ser humano, tanto dentro do útero, quanto fora do útero. As mulheres não retiram seus órgãos com tanta facilidade, por não precisarem mais deles. Não é o mesmo?

  7. profeta do profano

    “O âmago do problema consiste no aborto em si, sendo falsa a dicotomia entre aborto clandestino “arriscado” e aborto legal “sadio”, pois nenhum aborto é saudável, nem ética, nem social, nem psicologicamente. Se o aborto é o problema, o aborto não pode ser a solução”.

    Não, o âmago do problema não é o aborto, mas sim a gravidez que é fruto de estupro ou que oferece risco de vida à parturiente.
    Os casos citados são mais resultados da postura de nossa sociedade hipócrita e da pressão da Igreja, não há discussões em torno da ética, da saúde ou da psicologia.
    O âmago do problema está em dar educação sexual, divulgar programas de controle de natalidade e descriminalizar o aborto, sem neuras, sem histerias, sem alienações religiosas.

  8. Karina

    Excelente artigo.

    Aborto é uma cirurgia de altíssimo risco, e mesmo nos países onde é legalizado, o número de mortes de mulheres ainda é alto. Ou seja, não há a figura do “aborto seguro”.

    Fora a banalização da vida humana, como aconteceu em países que recentemente abriram as portas da morte, e aborto passou a ser visto como uma “cômoda” forma de continuar levando uma vida promíscua.

    Aborto é violência, é opressão, é perda da dignidade.

    Profano, acho que você não se importaria se legalizassem assassinatos e roubos. Afinal de contas, olha quantas mortes e feridos, quantas crianças órfãs, quantos pais sem filhos, por causa das balas perdidas nas ações de repressão contra a bandidagem e na atuação de grupos rivais!!! Sugiro que você seja o primeiro visitado por um assaltante, que gentilmente lhe tiraria tudo que você conseguiu ao longo dos anos. Assim, quietinho, sem histerias religiosas e morais, e sem esse discurso chato de que trabalhou anos para conseguir as coisas!

    • profeta do profano

      Karina, uma coisa não tem nada a ver com outra.
      Homicídio, furto, roubo, estão qualificados no código penal. leia, a srta verá que o aborto não é punivel em caso de estupro ou de risco à parturiente.

      • “Profeta do profano”,

        Você diz:

        “o aborto não é punivel em caso de estupro ou de risco à parturiente”

        Mas veja, certamente não foi esse tipo de situação que foi mostrada no Fantástico, e nem é esse o objeto da pesquisa citada. A própria Débora Diniz fala que quem aborta “é gente como eu e você”.

      • Karina

        Profano, você realmente acha que são desses abortos que esse povo fala em descriminalizar? Na-na-ni-na-não, são os abortos assassinatos sim senhor.

        P.S: a pena de morte não existe no Brasil, exceto em caso de guerra PARA “traidores da pátria”. Mas existe a pena de morte financiada pelo Estado para a criança concebida num estupro. E sem necessidade de se punir, ou sequer denunciar, o verdadeiro bandido da história: o estuprador.

        P.S: também tem sido frequentes, infelizmente, as penas de morte para os deficientes físicos portadores de má formação cerebral.

        P.S: querem aplicar a pena de morte à criança pelo crime dela ter sido concebida sem o consentimento/conhecimento de sua mãe (o pai nem conta). Ou porque ela não respeitou que a mulher que o concebeu é apenas uma criança que tem todo direito à vida sexual livre, mas nunca teria condições psicológicas de arcar com uma gravidez, coitada.

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  11. profeta do profano

    a reportagem em si fala das clínicas clandestinas, portanto, o amago da questão não é o aborto, mas o fato de que estas clínicas operam clandestinamente exatamente porque há uma enorme repercussão quando se fala em aborto, por causa de questões religiosas e doutrinárias impostas pela Igreja, não há qualquer discussão em torno da ética, da moral, da psicologia, da ciência ou da medicina.
    estas clinicas operam clandestinamente porque não há uma discussão imparcial sobre a questão do aborto, portanto o que deve ser discutido são as circunstâncias legais para tal procedimento clínico, em fetos, não em crianças.
    Os desdobramentos do ato do estupro devem ser seguido em outro inquérito, sendo seus culpados punidos.
    portanto, mantem-se que o amago do problema não é o aborto, mas a gravidez resultante de estupro ou que traz riscos à parturiente.

    • Profeta do profano,

      Mas veja, o aborto decorrente de estupro é feito pelo SUS, nenhuma mulher estuprada teria que procurar clínicas clandestinas.

      E o debate sobre os aspectos morais, éticos, médicos etc está sendo feito, sim, no Congresso Nacional e inclusive neste blog.

  12. Pingback: Hello world! « defesahumana

  13. Flavio / RJ

    Um grupo de mais de 60 ONGs feministas lançou um “manual” para jornalistas sobre aborto. Quem lê tem a impressão de que fazer aborto é melhor que ganhar na loteria. Até os problemas causados pelo aborto, que já foram temas de várias pesquisas noticiadas pela imprensa, foram omitidos. Na contramão de tudo publicado até hoje, o curioso documento diz que não há pesquisas que comprovem que aborto traz problemas psicológicos, físicos, etc. (?!) As pessoas têm que parar de pensar que só se é contra o aborto por religiosismo. O aborto já é garantido no Brasil qdo há risco para a grávida e para vítimas de estubro (desde out de 2010 não é preciso nem mais boletim de ocorrência para essas mulheres abortarem). O estupro, felizmente, é uma minoria dos casos, mas ainda assim é o argumento usado por organizações pró-aborto para causarem comoção e arregimentar simpatizantes. Embora sites de ONGs feminstas digam q diminuiu o número de abortos em países que o liberaram, basta pesquisar reportagens na net. Na União Soviética, onde o aborto é livre há décadas, só em 2005 houve 1 milhão e 800 mil abortos legais contra 1 milhão e 500 mil nascimentos, e esses números só caíram por que isso fez com que se desse mais atenção às campanhas de contracepção. E em Cuba, onde aborto é também livre há décadas, ele já é o principal método de contracepção usado principalmente por jovens. Isso no caso de Cuba, que é um país líder em contracepção… Imaginem o que aconteceria no Brasil! O que precisamos, na verdade, é de campanhas de esclarecimento, principalmente para os jovens, de como se evitar a gravidez indesejada, sobre a responsabilidade da vida sexual, da maternidade, da paternidade. Há interesses financeiros também poderosos por trás da política de implantação do aborto. Nos Estados Unidos há até um documentário (“BloodMoney”), lançado em 2010, denunciando isso, com depoimentos de gente que já foi graúda no meio abortista. Nota-se hoje no Brasil, o surgimento de muitos grupos pró-aborto que miram principalmente nos jovens, buscando formar mentalidade favorável ao aborto livre, inclusive com a divulgação de estatísticas que, embora poucos saibam, são feitas com base em critérios de instituições dos EUA já denunciadas por manipulação de estatísticas. Elas ganham milhões e só a Federação Americana de Planejamento Familiar possui mais de 800 clínicas de aborto na América (ver Wiki), e centenas de outras pelo mundo, sendo ainda a mãe do Instituto Alan Guttmacher, que é responsável pela divulgação de que no Brasil ocorrem mais de 1 milhão e 400 mil abortos clandestinos e que 180 mulheres morrem por ano por esse motivo. Isso apesar do DataSus dizer que em 2009 morreram no Brasil 19 mulheres por “Falha na tentativa de aborto”, números que nem multiplicando por 9 chega aos 180 . Pesquisem e confirmem o que estou dizendo. Tem muita gente hoje ganhando, e muito, com a política pró-aborto, estejam certos disso.

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